Diário de Bordo: primeira visita a uma praia de nudismo

07 de Dezembro de 2012

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Bárbara de Alencar

As viagens de motocicleta sempre proporcionam boas histórias para contar. É o caso de Sinomar Tavares. Apelidado de Velho Doido, aos 58 anos, ele percorreu as Américas de norte a Sul com suas duas companheiras: Edivânia Marques, 33 anos, e Celestine, uma Honda Shadow 750cc.

No relato de hoje, ele nos conta as impressões de um marinheiro de primeira viagem em uma praia de nudismo, no litoral brasileiro.

Praias de Nudismo (Naturismo) – Parte I

Dave Freeman, co-autor do livro ‘Cem coisas para fazer antes de morrer’, escreveu: “A vida é uma jornada muito curta. Como você pode ter certeza que você pode preenchê-la com o máximo de diversão e os lugares mais legais do mundo antes de você fazer as malas pela última vez?”.

Esse livro foi lançado em 2003 num momento muito especial e difícil da minha existência; quando me preparava para dar uma guinada na vida. Não o li, mas foi muito comentado na mídia e nas conversas da época e, segundo ouvi, uma das “cem coisas” listadas era andar nu em um campo. Encanei-me com isso.

O problema maior passou a ser convencer minha mulher a me acompanhar. Usei de meios éticos e antiéticos para convencê-la; declarei amor, implorei, chantageei e as suas negações só mudavam de intensidade. Considerando que a viagem já estava programada e considerando que ela me ajudava como se tudo estivesse certo e acertado, resolvi assumir o risco: “se ela não entrar, encaminho-a a um hotel e entro sozinho”.

Existem duas praias para a prática de naturismo no Brasil: Praia do Pinho, Santa Catarina e Praia de Tambaba na Paraíba. Na próxima edição escreverei sobre Tambaba.
 
Praia do Pinho – Santa Catarina

Chegando à portaria da Praia do Pinho, estacionei a Celestina e fui recolher informações a respeito do local. Comprei os ingressos, montamos e entramos no  acampamento. O temor em perder a companhia da garupa era constante e tinha aumentado consideravelmente na medida em que aproximávamos do objetivo. A cada metro percorrido dentro do acampamento aumentava  a expectativa de levar um aperto nas costelas e ouvir uma manifestação irada para voltarmos. Mas a moto rodava e minha mulher não manifestava.

Depois de escolher o local comecei a descarregar as tralhas da moto para levantar nossa casa, apesar da mulher permanecer insuportavelmente calada. Como o calor era intenso, resolvi tirar a camiseta. Vendo-me despindo, minha companheira começou a levantar sua blusa com o mesmo objetivo. Quando percebi sua intenção avancei-lhe com um salto e a detive dizendo:

- Ainda não precisa tirar a roupa, meu bem! A regra é a seguinte: no hotel, no camping e no restaurante a nudez é opcional;  na praia, no bar e nas demais áreas é obrigatória.

Terminado os serviços fui procurar o mictório. Encontrei o prédio com a placa indicativa de sanitário, mas na única porta existente entrou uma mulher. Olhei para os lados, circulei a construção e não encontrei outra instalação, mas a dúvida foi logo desfeita quando vi um homem saindo pela mesma porta que entrara a mulher. Então a ficha caiu: “é compartilhado!”.

O banheiro era um amplo salão com aproximadamente vinte metros de comprimento e oito de largura. À esquerda, havia uma enorme bancada de mármore onde foram inseridas mais de uma dezena de lavatórios quase que emendados, sobre os quais ostentava um largo, contínuo e bonito espelho.  À direita havia uma fileira de duchas, uma para cada pia, sem qualquer divisória separando-as. Os vasos sanitários dispostos na entrada do salão eram protegidos por divisórias que mostravam as pernas e a cabeça do usuário.

Voltei para onde estava minha esposa e sugeri-lhe para tomarmos banho naquele momento e aproveitarmos o pouco movimento. Ficamos felizes por não haver ninguém. Postei-me em frente a uma pia e comecei a me barbear enquanto a esposa se posicionou bem atrás de mim e começou a aplicar xampu aos cabelos.

Estava entretido com a lâmina quando uma mulher nua chegou e ocupou a pia localizada imediatamente ao meu lado direito. Evidentemente que a partir daquele momento deixei de prestar atenção por onde o barbeador passava para observar os seios da mulher, tabelando com o espelho. Mais uns três minutos apareceu outra peladona que se posicionou na pia imediatamente a esquerda. Cheguei a censurar as mulheres por escolherem aquelas posições, pois existiam outros lavatórios mais distantes. Entretanto, em vez de censurar, alternava meu olhar entre os seios de uma e da outra. A terceira mulher que entrou ficou mais distante.

Não me lembro ao certo se meu entretenimento me impediu de ver seus respectivos companheiros entrando ou, se os vi, não dei a importância devida. O que me recordo, chocado até hoje, foi com as cenas que se seguiram: minha mulher num banho coletivo.

Daquela constatação em diante perdi o interesse pelas minhas companheiras de bancada e passei a observar, através do espelho, somente as cenas nas quais minha mulher aparecia ladeada pelos três peladões. A preocupação levou-me a prestar atenção principalmente na metodologia utilizada pelos caras na lavação das suas partes íntimas. Julguei que eles gastavam muito tempo lavando essa região do corpo. Com a mão esquerda os camaradas levantavam os testículos até quase o umbigo e, com a mão direita, exageravam na esfregação da parte inferior; o volume caia e a esfregação continuava na parte superior. Tudo isso muito próximo da minha mulher.  Achei que também exageravam nos movimentos que faziam para lavar as nádegas.

Foi o banho mais rápido que já tomei na minha vida. Minha mulher jurou - e eu acreditei - que não viu nada desses movimentos e, ao contrário dos homens, não teve coragem de se higienizar corretamente.

Quando retornamos à barraca encontramos três casais e algumas crianças, todos nus, namorando a Celestina, então, mais que depressa, minha mulher entrou na tenda para proteger-se dos olhares, enquanto eu dava atenção aos curiosos.

Um dos casais era argentino e morara um tempo em Ushuaia, por isso o papo prolongou por tempo insuportavelmente longo. O que me causou vergonha não foi a minha nudez; mas meu olhar. Alguém me perguntava algo e, ao responder, em vez de olhar no rosto do interlocutor, meus olhos, involuntariamente, conduziam-me à genitália da pessoa; até que tentava dominá-los, mas não me obedeciam. Por fim fixei-os na Celestina e fiquei tal qual bobo: respondia sem olhar no rosto do interlocutor.

Sentamos num ponto privilegiado para visão geral do local e passamos o resto da tarde curtindo a circulação de pessoas peladas. O que mais nos chamou a atenção foi os freqüentadores do bar. Não havia mesa e cadeira para todos, então enquanto uns sentavam, normalmente as mulheres, os outros ficavam em pé e o papo rolava animadamente com grandes risadas; como se todos estivessem de roupa. A particularidade era que quem estava sentado ficava com o rosto nivelado com as genitais de quem estava em pé. Quando um homem em pé ria ou gesticulava o seu órgão balançava bem próximo da cara da mulher que estava sentada, mas ninguém ligava.

No dia seguinte acordamos bem cedo para chegarmos à praia antes das outras pessoas. Saímos de mãos dadas levando duas tolhas que desciam dos ombros até cobrir um pouco das partes baixas. Ficamos das 7 às 17 horas na praia. Era como se estivéssemos assistindo a um filme de longa metragem. Não tínhamos vontade de voltar ao acampamento. Na praia havia dois ou três seguranças para evitar atos libidinosos.

Sinomar Godois Tavares, 58 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
http://www.facebook.com/sinomarg

Saiba mais sobre esse aventureiro:

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Fotos: 1 e 3 - Divulgação | 2 - Brasil Naturista | 4 - Arquivo Pessoal/Sinomar Tavares