Diário de Bordo: dificuldades nas estradas dos Andes

30 de Outubro de 2012

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Bárbara de Alencar

Com 57 anos, Sinomar Tavares coleciona histórias para contar. Em 2008, quando faltava pouco para sua aposentadoria, comprou uma Honda Shadow 750 cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca, que fez acompanhado de sua esposa, Edivânia Marques, 33 anos. Abaixo, um relato sobre a passagem pelos Andes e as dificuldades enfrentadas com a baixa temperatura das grandes altitudes, que ele classifica como “o maior frio que passamos”.
 

Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo
 

Cordilheira dos Andes

 

A primeira coisa que a maioria das pessoas se preocupa, quando digo que fui ao Alasca, é com relação ao frio. Inevitavelmente, tenho que esclarecer que o maior frio que passamos foi aqui bem pertinho: na Bolívia e no Peru.
 

Quando escrevo sobre os Andes preciso esclarecer uma particularidade sobre os veículos alimentados através de carburador, como é o caso da minha querida Celestina. A partir dos 4.000 metros acima do nível do mar (manm), por deficiência de oxigênio, os autos carburados perdem potência e expelem gasolina crua em meio a uma fumaça negra. Um dos recursos consiste em retirar o Filtro de Ar na subida e recolocá-lo na baixada. Mesmo assim, a velocidade máxima na reta não passa de 50 km/h e na subida exige primeira marcha na maior parte do tempo. Os veículos com injeção eletrônica não apresentam esse problema, pois são auto-ajustáveis.
 

Frio na Bolívia
 

Por volta das 14 horas, deixamos Cochabamba, a terceira maior cidade da Bolívia. Era cedo para dormir e tarde para enfrentar a cordilheira dos Andes, mas partimos. Subir essa cordilheira constitui-se na maior glória para um motociclista e, por isso, cria-se dentro do piloto uma ansiedade inexplicável para enfrentá-la.
 

Depois de passar por uma cidade de nome Quillacollo, começa o aclive. Era muito emocionante rodar em ziguezague vendo a estrada que passei logo abaixo e enxergando os caminhões subindo acima da minha cabeça. Não muito tempo depois, tivemos que sacar o filtro de ar, mas continuamos a subida.
 

Quando alcançamos a altitude 4496 manm o sol já estava fraco, o vento muito forte, o frio enrijecia minhas mãos e resolvemos parar numa comunidade indígena de nome Japo, onde apenas um habitante, o enfermeiro, sabia falar Espanhol. Como o frio aumentava consideravelmente procuramos uma área mais propícia e armamos rapidamente nossa barraca; esquentamos leite com chocolate e bebemos com pão; não tivemos ânimo para ferver a tradicional sopa de saquinho que acompanharia o pão.
 

Após vestir a maior quantidade de roupas possível, entramos nos sacos de dormir indicados para suportar zero grau. A Edivânia dormiu confortavelmente, até roncou, mas eu senti os efeitos do “mal da altitude” e não dormi quase nada; minha cabeça doía, apresentava-me sintomas de febre, o estômago indicava sensação de vômitos e o coração batia mais acelerado.
 

No dia seguinte, quando tivemos coragem de nos despirmos dos “sleep bags” e olhar para fora da barraca levamos um susto gostoso com o gelo que cobria a moto e a barraca. Ficamos felizes, gritamos e fomos escrever palavras de amor no gelo, fotografar e filmar.
 

Este local foi o mais frio da viagem, porém menos sofrido.
 

Frio no Peru
 

Depois de Machu Picchu e Cuzco, no Peru, dormimos numa colônia de férias administrada por um Pastor Evangélico que nos abençoou antes de seguirmos viagem.
 

O dia começou lindo, conforme benção pastoral. Debaixo do meu capacete, divagava e curtia aquela paisagem cheia de curvas e serras. Na parte da manhã, subimos, subimos e subimos; posteriormente, descemos, descemos e descemos a mesma serra. Entre as treze e as dezesseis horas, rodamos por uma estrada cercada por grandes montanhas, num vale em cujo interior corria um rio de águas lindas, alternando azul, onde era célere, e verde, quando o líquido descansava. Na medida em que o rio entortava para fugir das pedras, a estrada o acompanhava, entortando também; proporcionando-nos curvas ora fortes e emocionantes, ora suaves e gostosas. Pensei várias vezes: "pilotar é gostoso demais!".
 

Por volta das 16 horas parei para abastecer e a moça frentista me advertiu: "Llene el tanque con gasolina octano 90, porque es mejor para quemar en las montañas". Segui a sugestão. Analisei o mapa, fiz algumas indagações e cheguei às seguintes conclusões: estávamos no pé da Cordilheira dos Andes e tínhamos pela frente 175 km entre a subida, o ápice, e a descida. Calculei que em três horas romperia essa distância e chegaríamos por volta das 19 horas à cidade de Púquio, situada do outro lado da montanha. 

A partir desse ponto começou o nosso sofrimento. Cheguei a blasfemar pensando que a oração do Pastor tinha vencido, mas posteriormente o agradeci por estarmos vivos. Começamos a escalada e o vento frio bateu forte aumentando na proporção que subíamos e, inversamente, a Celestina diminuía a resposta ao acelerador. Retiramos o filtro e mesmo assim não andava. Quando chegamos ao cume da cordilheira, uma planície com aproximadamente 110 km de extensão, a moto conseguia andar a 50 km/h, mas não era constante, pois o vento quase nos jogava para fora da pista ou, dependendo da posição da estrada, batia de frente, diminuindo o desempenho e aumentando a força nos braços e o frio nas mãos.
 

A esperança de encontrar uma vila era tão forte quanto o vento e tão intensa quão o frio. Até que apareceu uma casa ao lado direito da rodovia. Mas não foi possível pousar por ali por causa das condições de insalubridade e periculosidade interna e do vento externo. A construção desgastada era um ponto de venda de combustível a granel, o piso absurdamente sujo, enlambuzado de graxa e o velho casal que tomava conta do local cozinhava e dormia numa espécie de tablado dentro da casa. Aproveitamos para colocar mais gasolina e seguimos viagem.
 

Depois de um tempo, o vento amenizou e a topografia mesclava algumas descidas suaves onde a velocidade atingia até 80 km/h, mas logo a noite fortaleceu-se, negra e temerosa, trazendo consigo uma densa neblina que praticamente anulava o farol. Felizmente, não demorou muito a névoa dispersou e uma gigante e linda lua apareceu às nossas costas, nos acompanhou no restante do percurso.
 

Depois que a neblina dissipou comecei a sentir que a moto estava desestabilizada, como se o pneu traseiro tivesse furado. Coincidentemente parei em frente a uma placa indicando 70 km para a próxima cidade; pedi para a Edivânia verificar o pneu, mas estava normal. Então lhe implorei que fizesse massagem nas minhas costas porque uma dor intensa começara no braço e irradiava por todo meu lado posterior direito. Quando ela olhou para meu dorso, exclamou: “Nossa, bem! Sua jaqueta está cheia de gelo!”. Foi então que percebi que a instabilidade da Celestina decorria do gelo na pista.
 

O trecho remanescente foi percorrido numa velocidade entre 20 e 30 km/h. A geada foi aumentando a ponto de refletir no asfalto pelo clarão da lua e escorregava como sabão. Nesse ínterim descobri que o suor que acumulara dentro das botas, enquanto no calor, tinha congelado e incomodava severamente os dedos dos pés. Quanto aos dedos da mão, repetidamente, parava e segurava com as duas mãos no escapamento para aquecer as luvas. Além da dor muscular decorrente da pilotagem ainda sofria os efeitos do “mal da altitude”.
 

Quando começamos a descer a cordilheira o gelo da pista sumiu, a lua estava a pico e iluminava os despenhadeiros e as curvas de 360º nas quais os caminhões nos ultrapassavam de tão devagar, travado, cansado, duro e dolorido me encontrava.
 

Em Púquio paramos no primeiro hotel, paguei e determinei que a Edivânia subisse, ficasse meia hora debaixo do chuveiro quente, enquanto eu guardaria a moto e procuraria uma pizza para saciar nossa fome leonina. O porteiro queria que eu enfiasse a moto num buraco para não ocupar o estacionamento de carro, mas minhas forças eram insuficientes, me fiz de desentendido, dizendo “Yo no hablo español” e saí deixando a moto na vaga do carro e o cara esbravejando. Quando entrei no quarto com a pizza, minha companheira estava debaixo das cobertas com os lábios roxos. Nunca passamos tanto frio como nesse dia.
 

Sinomar Godois Tavares
57 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
http://www.facebook.com/sinomarg

Fotos: 1 e 3: Divulgação | 2 e 4: Arquico Pessoal (Sinomar Tavares)