Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

23 de Outubro de 2012

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Bárbara de Alencar

“Você não acha que está muito velho para enfrentar essa viagem ao Alasca?”, indagou a filha caçula de Sinomar Godois Tavares, 57 anos, quando ele anunciou o seu projeto à família: sair de Morrinhos (GO) rumo ao estado gelado dos EUA, em uma Honda Shadow 750 cc.  Hipertenso, diabético, com células pré-cancerígenas na cabeça e com a próstata crescida, ele é a prova de que ser motociclista e ganhar a estrada é uma questão de espírito e de atitude.
 

Nascido em Goiatuba, em Goiás, Tavares tinha vivido tudo que uma vida normal pedia. Bacharel em Direito e Ciências Contábeis, ele trabalhou por mais quase três décadas na antiga empresa estatal Telegoiás, que hoje pertence à Oi, até largar tudo, em 2005, para administrar o Hospital Municipal de Morrinhos.  Tinha um bom emprego, casou-se, criou seus três filhos, divorciou-se, saiu para dançar e conheceu Edivânia Marques, sua esposa e companheira de aventura.
 

Em janeiro de 2008, quando faltava aproximadamente um ano para sua aposentadoria, ele comprou a sua primeira e, até agora, única moto, apelidada carinhosamente de Celestine. Sinomar fez a aquisição antes mesmo de saber pilotar.  “Três meses depois tirei a habilitação e já enfrentei uma viagem até o centro da capital paulista, com a esposa na garupa. Andava o tempo todo com as pernas abertas preparando para cair no meio daquele trânsito louco”, conta ele.
 

Sem GPS, Tavares se largou na primeira aventura internacional, que teve como destino Ushuaia, localizado na Terra do Fogo. A viagem durou 67 dias, totalizando 9.500 quilômetros. Depois de rodar pela temida Ruta 40, ele passou pelo Chile, seguiu até Caleta Tortel, cidade onde se pode ir rodando ao Sul desse país. Na sequência, foi a San Pedro do Atacama.
 

“O recado que deixo para todos é que dinheiro, tamanho de moto e falta de saber falar línguas não são desculpas para deixar de viajar”, afirma. Após ter visitado o extremo sul do continente americano, Tavares emplacou um novo projeto, ir para o Alasca de moto. A empreitada, realizada em 2011, rendeu-lhe o apelido de “Velho Doido”, uma brincadeira carinhosa de seus três filhos que, hoje, contam com entusiasmo as histórias do pai. Foram nove meses de viagem, 57 mil quilômetros e diversos países visitados. A aventura despertou o interesse até de um jornalista do periódico norte-americano The New York Times, que ficou impressionado com o orçamento do casal: U$ 75,00 diários.
 

Para levantar recursos para suas viagens, Sinomar tentou conseguir patrocínio, sem muito sucesso. Na road trip rumo ao Alasca, uma farmácia vizinha à sua casa, forneceu os medicamentos para hipertensão, diabetes, vitaminas e protetor solar.
 

De suas expedições, sobraram histórias para contar. O resultado será um livro com previsão de publicação em 2013. A obra traz um apanhado das situações vividas pelo casal, durante as viagens, como, por exemplo, o frio exacerbado dos Andes e os desafios para cruzar a América Central. “A dificuldade maior foi com os trâmites burocráticos das aduanas”, diz. 
 

A polícia aduaneira do Peru, segundo Tavares, extorquiu dinheiro por estarem sem o seguro da moto. Na Colômbia, Edivânia enfrentou sete soldados armados com metralhadoras e conseguiu evitar o pagamento de suborno. Já em Acapulco, no México, ela discutiu com dois policiais que tentavam arrancar dinheiro, alegando que eles teriam avançado sinal vermelho. “Mais uma vez, conseguimos nos safar. Daí para frente ela adotou um procedimento que nos evitou diversos aborrecimentos: quando via um grupo de policiais ela começa a filmar”, relembra.
 

Outro episódio marcante foi a travessia do Canal do Panamá, no retorno da viagem ao Alasca. Em uma tempestade no mar do Caribe, o casal conheceu o verdadeiro medo da morte. “Quando o pequeno barco atingia a crista da onda e, esta lhe atingia a popa, o navio embicava rumo ao fundo do mar. Depois, o processo retornava. Os raios eram a única luminosidade em alto mar e pareciam que nos atingiriam a qualquer momento. Os trovões pareciam mais bravos que os ouvidos em terra e seguiam a cada relâmpago”, narra.
 

Para quem quer começar a por o pé na estrada, Sinomar dá a dica: “Tempo é o único requisito para quem quer viajar.” Segundo ele, moto muito grande e pesada não é indicada para grandes aventuras onde se anda em cascalho, atravesse em balsa, ou canoa, algum rio, ou oceano.
 

Um conselho que o “Velho Doido” também deixa para todos os motociclistas é que tentem acabar com a irritabilidade. Quando afastou-se do alcoolismo, em 1992, ele ficou muito irritável. Então, em 1994, propôs-se a acabar com essa característica. “Foi uma das maiores conquistas da minha vida; mais que parar de beber e maior que a viagem ao Alasca. Assim me orgulho em ter ficado nove meses viajando com minha esposa e nunca, nenhuma vez, fiquei irritado com ela ou com qualquer que seja as situações nas quais sofremos”, conclui.
 

Os relatos das aventuras de Sinomar Tavares podem ser lidos em: sinomarg.blogspot.com; velhodoido-ne.blogspot.commorrinhos2ushuaia.blogspot.com.
 

Fotos: Acervo pessoal/ Sinomar Tavares