Diário de Bordo: Os Aventureiros na Patagônia Parte IV

28 de Dezembro de 2013

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ENCONTRODEMOTOS.com

Estradas de cascalho margeadas por enormes precipícios, polícia alfandegária e muita aventura são alguns dos causos vividos pelo motociclista Sinomar Tavares e sua companheira de vida e viagem, Edivânia Marques, nessa jornada pela patagônia chilena.  Depois de se aposentar, aos 57 anos, ele comprou uma Honda Shadow 750cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca.

Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira abaixo mais um divertido relato sobre a aventura do casal (Parte I; Parte II, Parte III):
( A crônica é narrada pela Edivânia que será a protagonista no livro. VD significa Velho Doido que sou eu.)

Na edição anterior, descrevi sobre a saída da Argentina, entrada no Chile e da indecisão sobre se iríamos até o último ponto de acesso terrestre ao sul daquele país. Contei também que foi a coragem de um grupo de ciclistas que nos motivou a seguir rumo ao Sul e sobre uma queda de VD que me assustou muito, pois pensei que ele ia cair em um precipício. 

Dormimos e, agora, estávamos percorrendo um trecho de 120 km entre Cochrane e o povoado de Caleta Tortel, que foi a pior relação custo-benefício de toda a viagem. Rodamos por uma estrada muito ruim, sem pavimentação, sem terraplanagem, excessivas ondulações e nenhuma atração visual. Ao contrário, a visão era lastimável. Desde a descida da serra, a paisagem havia mudado e transitávamos em meio à floresta nativa, porém a quantidade de madeira retirada da floresta, serrada e amontoada à beira da estrada era de doer o coração. Os processos construtivos das residências e dos seus sistemas de aquecimento ainda eram executados com a madeira extraída da floresta natural.

Chegamos à Caleta Tortel depois do meio dia; uma modesta vila de 400 habitantes. A comunidade foi fundada em 1955 para explorar o cipreste, madeira abundante na região e ainda sua base econômica. Com a interligação terrestre, a partir do ano de 2003, o turismo passou a influenciar na vida dos moradores, que faturam alguns trocados, mostrando a foz do rio Baker, algumas ilhas, fiordes e canais. Outra curiosidade buscada pelos turistas é a forma construtiva das casas e das ruas. Por causa da irregularidade do terreno, e da aproximação com a água, a população local construiu suas casas sobre palafitas. Não era possível o tráfego de veículos e, assim, os pedestres circulavam pela vila sobre sete quilômetros de passarelas de madeira, erguidas acima do solo. Chegamos, olhamos, fotografamos e retornamos para Cochrane. 

Gastamos 14 horas para percorrer os 250 km de ida e volta entre as duas cidades e, graças à generosidade solar, montamos a barraca sob sua claridade no mesmo camping que dormíramos na noite anterior. A intenção era de partir ao amanhecer. 

Acordei no dia seguinte assustada com a exclamação do homem que dormira ao meu lado:

- Nossa! Perdi meus dedos. Não sinto meus dedos! Estou aleijado! 

Seus dedos estavam inflexíveis e sem sensibilidade; não doíam, mas também não dobravam um milímetro sequer. Os músculos haviam enrijecido pelo esforço de embrear marcha, acelerar e frear. A estrada percorrida no dia anterior não permitia que a moto andasse na velocidade mínima da primeira marcha e VD era obrigado a segurar a aceleração usando o manete da embreagem. Um pouquinho que ele soltava a embreagem para descansar a mão esquerda, em algum ponto que a estrada permitia, logo era obrigado a frear, sacrificando a mão direita. Passei o dia fazendo compressa, massagem e lambuzando suas mãos com a pomada de uso tópico que carregávamos para essas ocasiões.

No camping, conhecemos os dois maiores aventureiros de toda a viagem: um casal de ciclistas que cruzava do Canadá ao Ushuaia transportando o filho. Quando saiu do Canadá, a criança tinha apenas dois anos de idade e na data que os encontramos jogava bola e andava na sua própria bicicleta; devia estar com sete anos. A mãe arrastava uma bike trailer e o pai uma bike infantil. Quando o garoto estava acordado, montava na sua própria bicicleta e era arrastado pelo pai; quando dormia, era rebocado pela mãe. Um exemplo de coragem sem precedentes.

Com as articulações restabelecidas, retornamos às ondulações, cascalho e areia.  

Nos últimos dias, fomos ultrapassados por alguns motociclistas que nos abandonavam por rodarmos muito devagar. Um desses mais apressados era um finlandês naturalizado brasileiro, com idade compatível à de VD e com quase dois metros de altura. Um veterano audaz que já tinha rodado o sul do Brasil e o Uruguai sobre uma bicicleta, antes de começar a viajar de moto. Neste veículo, era sua quarta viagem internacional e a segunda pela Ruta 7. Ele ziguezagueava pelas cidades adjacentes, sempre voltando para a rodovia principal. Por esta razão, nos encontramos por cinco vezes. Sempre que VD manifestava interesse em acompanhá-lo, retorquia, alegando que éramos muito lentos. 

Naquele dia, depois de rodarmos por um trecho longo, enfadonho e VD ainda convalescendo da dormência articular, paramos para comer o tradicional pão com salame e suco. Estávamos fazendo a sesta do almoço, curtindo o sol fresco do meio-dia, aproveitando para relaxar e descansar o esqueleto dos sacolejos da rodovia, quando ouço o ruído de um veículo aproximando.

- Este barulho é da moto do Steen! – manifestei.

- Você tá maluca? Ele já deve estar bem na frente – retrucou VD.

Mais alguns minutos, pela sexta vez, surge à distância a silhueta compactada homem e máquina. Quando nos reconheceu levantou e agitou o braço esquerdo como se comemorasse o final de uma prova. Antes mesmo de sacar o capacete, foi dizendo:
    
- Olá! Tudo bem? Vocês é que estão certos em pilotar devagar. Ontem levei um baita tombo! Entortei a pedaleira, quebrei o alforje, perdi a quinta marcha e quase quebrei a perna. Vocês ainda me aceitam no grupo?    

A partir desse momento, viajamos quatro dias juntos e aprendemos muito sobre sobrevivência em circunstâncias adversas. O finlandês nos deu verdadeira aula sobre um assunto que julgávamos muito espertos: economizar dinheiro. O grandalhão não se hospedava em hotel, tomava banho nas águas gélidas dos riachos e usava um minúsculo fogareiro a álcool para preparar sopa e café. 

Desviamos da nossa rota para acompanhá-lo até Puerto Cisnes. Para alcançá-la, deixamos a Ruta 7 e pilotamos 33 km sob uma chuva fina, fria e contínua que fazia da estrada, ora um tapete ensaboado que dominava a direção jogando-nos de um lado para outro, ora uma panela esponjosa que fazia-me pensar que a moto seria engolida. Outra preocupação dominante foi como iríamos dormir, pois a noite começava e pelas conversas anteriores ainda faltava muito para chegar à cidade. 

A preocupação quanto ao sono não durou muito, pois logo vimos uma casa ao lado da estrada e o Steen decididamente galgou um monte de terra que divida a estrada da entrada da residência e chamou à porta. Nós ficamos esperando na estrada, como se estivéssemos preparados para fuga. Depois de trocar poucas palavras com os proprietários fez sinal para que chegássemos. Passado alguns segundos estudando o terreno VD encontrou um local onde a moto conseguiu passar. Será muito difícil sair amanhã, pensei. 

Quando acordamos no dia seguinte a nossa anfitriã tinha nos disponibilizado pão e queijo preparados na própria fazenda, além de leite e chá. Enquanto sentávamos à mesa, nosso companheiro tirava foto de todos; realmente um cara muito simpático.

Para puxar conversa VD contou que vinha sentindo uma sucessão de dores que o atacava diariamente da seguinte forma: das 6 às 10 horas, doíam-lhe os braços do cotovelo até as mãos; das 10 às 22 horas, as dores dos braços diminuíam, mas começava uma dor forte no lado direito do pescoço que o atrapalhava dormir. Quando escutou esse relato a dona da casa jogou uma panela com água no fogo e tivemos que esperar uma infusão de folhas que VD, contrariado, esfregou nas regiões afetadas. Meu companheiro era relutante quanto ao uso de analgésico e me respondia quando lhe oferecia analgésico: 

- A dor provém do cérebro; o planejamento dessa viagem veio do cérebro; do cérebro veio, também, a vontade de estar nessas condições. Então, ele que se dane! – em outros momentos respondia – Todas as coisas boas da vida têm uma contrapartida: nesta é a dor. 

Meu piloto sempre fazia analogia em relação aos opostos da vida. A mais simples citação era de que depois de um bom porre vem uma boa ressaca. Na medida em que ia aumentando a complexidade dos problemas, ele mudava as comparações. Parecia que ele era vacinado contra sofrimento; era como se os problemas já estivessem listados no seu cérebro. Discordava-me dele nesse ponto. Parecia que ele curtia a vida com o freio de mão puxado; como se já esperasse o sofrimento futuro. Mas devo reconhecer que ele estava sempre feliz, mesmo sentindo dores.

O povoado Puerto Cines tinha 2.500 habitantes e fica ao lado de um braço do Oceano Pacífico, onde deságua um grande rio. Fatores que propiciaram a implantação de duas grandes indústrias pesqueiras e a transformaram num importante pólo de piscicultura. Graças à capacidade de pechinchar do nosso companheiro, saboreamos, por apenas oito dólares, o melhor peixe que já comi em toda minha vida: salmão grelhado ao azeite.

Terminamos o almoço, circulamos pelas poucas ruas da cidade, e retornamos pelos mesmos 33 km. 

Sinomar Godois Tavares, 58 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
 http://www.facebook.com/sinomarg

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Fotos: Divulgação