Diário de bordo: Os Aventureiros na Patagônia – Parte III

01 de Dezembro de 2013

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Estradas de cascalho margeadas por enormes precipícios, polícia alfandegária e muita aventura são alguns dos causos vividos pelo motociclista Sinomar Tavares e sua companheira de vida e viagem, Edivânia Marques, nessa jornada pela patagônia chilena.  Depois de se aposentar, aos 57 anos, ele comprou uma Honda Shadow 750cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca.

Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira abaixo mais um divertido relato sobre a aventura do casal (Parte IParte II): 
(Doravante, Edivânia será a protagonista, como no livro. VD significa Velho Doido que sou eu.)

Na edição anterior, descrevi sobre as dificuldades em trafegar pela Ruta 40 e terminei quando dormimos numa vila com oito casas no meio do deserto patagônio.

Acordamos tarde por causa do conforto dos sacos de dormir e medo do frio que castiga ininterruptamente a região. Andamos mais uns 120 km, cambaleando pelo cascalho e chegamos à fronteira com o Chile.

Não me agradou o modo como os fiscais alfandegários do Chile nos abordaram. Tivemos que desmontar toda a bagagem da moto e abrir cada um dos objetos: a barraca, os sacos de dormir, as bolsas, e inspecionaram, inclusive, o interior dos colchões. Verificaram o conteúdo dos tanques e olharam por baixo dos paralamas, agindo como se alguém tivesse nos denunciado por tráfico de drogas ou algo parecido. 

Depois de liberados, tivemos o exaustivo trabalho de remontar bagagem, que exigiu tempo e paciência. Enquanto recolocava os objetos nos seus respectivos lugares manifestava oralmente minha indignação para os policiais escutarem, mas VD contemporizava preocupado.

- Olhe pelo lado positivo! Pense na importância desse trabalho para o mundo; para uma humanidade com menos drogas e violência.
    
Poucos minutos após deixar a alfândega, vimos quatro veículos estacionados e algumas pessoas olhando e fotografando para a mesma direção. VD parou ainda distante e pediu que eu verificasse o objeto de desejo dos turistas, o que não me foi difícil. Em poucas passadas tive o enorme prazer de identificar o grande alcance do mirante e chamei freneticamente meu piloto para compartilhar daquela rara beleza e do raro perigo: um enorme lago e um barranco que calculei em 300 metros de profundidade quase vertical.
    
O Lago Buenos Aires/General Carrera situa-se na Patagônia e é compartilhado pelo Chile e Argentina. Na Argentina, é conhecido como Lago Buenos Aires, no Chile, é denominado Lago General Carrera, sendo ambos os nomes corretos e aceitos internacionalmente. De origem glaciar, com uma superfície de 1850 km², é o segundo maior lago da América do Sul, menor apenas que o Titicaca.

As montanhas que prendiam covardemente as águas do lago eram totalmente desérticas; sem vegetação, sem gente e sem animais. Numa delas, a da esquerda, VD distinguiu a estradinha que certamente iríamos descer: uma hipotenusa que saia do vértice superior esquerdo e descia até o vértice inferior direito. 

Descer a montanha numa estrada estreita, no cascalho, e tendo o lago espreitando à minha direita não foi nada agradável. Houve momentos em que VD teve que pilotar a Celestina a cerca de um metro do abismo. Uma situação temerosa, sobretudo quando cruzávamos com outro veículo reduzindo nosso espaço e nossa margem de segurança. A pergunta que me acompanhou sem reposta durante o percurso era se a água do lago, dezenas de metros abaixo, nos serviria como atenuante ou agravante, no caso de uma queda. Não sei se por causa do piso ou pela inabilidade do piloto, a moto eventualmente dava algumas guinadas para o lado do precipício e meu estômago gelava. 

Quando terminamos a descida, paramos no único comércio do povoado de Puerto Guadal. Local onde VD tomaria a decisão de seguir para o Sul ou para o Norte. Se seguíssemos à direita, estaríamos voltando para casa; à esquerda, iríamos para o extremo sul do Chile: último ponto onde se podia chegar num veículo terrestre. 

Ao sul visitaríamos as vilas Coleta Tortel e Puerto Yungay, os pontos iniciais da Ruta 7, a temida Carretera Austral. Conhecer o Chile de um extremo ao outro fazia parte do projeto e era promessa reiterada por VD a todo motociclistas encontrado pelo caminho. 

Vangloriar-se foi fácil. Porém, quando chegou o momento de cumprir suas promessas e bravatas, a situação se complicou. Após trinta e um dias na estrada, nosso desgaste era visível, sobretudo nos últimos dias, quando a tensão da pilotagem em estradas de cascalho enrijecera nossos músculos. O corpo já não respondia aos comandos da mente e o projeto de descer até o extremo sul do Chile estava sendo colocado em cheque.

VD já tinha desistido do desafio, quando apareceu um grupo de ciclistas, composto por dois argentinos e um chileno, e liderado por uma linda jovem suíça. A turma chegou a Puerto Guadal e estacionou em frente ao empório onde estávamos. Os ciclistas não entraram de imediato. Os homens, assim que pararam, foram fazer reparos na bicicleta da suíça. 

Como mulher, adorei presenciar a moça distribuindo ordens e sugestões e os três jovens que se associaram para atendê-la. Essa turma vinha do Sul, de onde acabávamos de desistir de ir, e subiriam pedalando a mesma serra que havíamos acabado de descer com tanta dificuldade. Foi então que VD resmungou:

- Se eles tiveram coragem de ir pedalando acho que a gente consegue ir motorizados. Vamos partir agora!

Pouco quilômetros depois, estávamos virando à esquerda na Ruta 7. Enquanto a Celestina enfrentava as “costelas de vaca” em velocidade insignificante, eu dividia minha mente entre o medo de cair e as lembranças afetivas da ciclista. 

A reflexão a respeito da loura empoeirada, mas bonita, reforçava a admiração que eu já vinha nutrindo em relação aos Suíços. Aquele era o quarto grupo de ciclistas, entre as duas dezenas que encontráramos, com algum participante da Suíça. Mas aquela mulher era especial. Que coragem! 

Conforme relatou ao VD num espanhol bem articulado, a moça conheceu seus companheiros pela internet, veio sozinha para a América, sem os conhecer pessoalmente, e estava ali enfrentando corajosamente aquela região inóspita.

Uma mulher linda, loura, alta, pernas torneadas, seios pequenos e rijos cujos mamilos estufavam o tecido de malha. A falta do sutiã e calça de malha apertada mostrando o sinal da calcinha hipnotizou meu companheiro. Mas nem o critiquei porque a sensualidade da garota era invejável; fugia totalmente ao estereótipo da mulher aventureira. 

O que passaria pela cabeça daquela moça ao deixar o conforto do seu país? E o sexo? Será que ela transava com nenhum, com um, dois ou com os seus três companheiros? Com um de cada vez? Ou com os três simultaneamente? Ela não tinha medo de sofrer algum tipo de abuso? Ou será que curtia sadomasoquismo? Quanta diferença entre a coragem dela e a minha!

Os pensamentos reverentes e libidinosos cessaram quando, no cume da serra - agora subindo rumo ao sul – deparamo-nos com uma carreta tombada e atravessada na estrada. Parte do veículo ficara suspensa no imenso precipício e a cabine quase encostada no paredão de pedra à esquerda.
 
Como era de costume, VD foi ultrapassando a pequena fila de carros parados e se posicionou ao lado do caminhão. Depois de analisar a situação, contrariando minha vontade e a de outros motoristas, VD resolveu passar na pequena brecha entre a cabine e a parede. 

Quanto ao espaço ele estava certo: a moto coube. Porém, depois de já ter ultrapassado o maior obstáculo e já ter vencido parte do aclive, meu piloto deixou a moto apagar, a declividade não respeitou o freio dianteiro e a moto foi voltando se arrastando. Quando vi que VD seria jogado debaixo da carreta comecei a gritar, chorar e pedir clemência a Deus. Percebendo o perigo VD soltou a moto e caíram juntos deslizando pelo cascalho. 

Os motoristas correram em socorro e rapidamente o piloto e a máquina estavam verticalizados. A moto quebrou o suporte dos faróis auxiliares, entortou a pedaleira e derramou gasolina; o piloto somente sujou a roupa.

Depois do susto ainda rodamos algumas horas até alcançar a localidade de Cochrane onde dormimos num camping.    

Sinomar Godois Tavares, 58 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
http://www.facebook.com/sinomarg

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Fotos: 1 e 2Dave Schumacher | 3: Arquivo pessoal Sinomar Tavares