Diário de bordo: Os Aventureiros na Patagônia – Parte II

24 de Novembro de 2013

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ENCONTRODEMOTOS.com

Com 57 anos, Sinomar Tavares coleciona histórias para contar. Em 2008, quando faltava pouco para sua aposentadoria, comprou uma Honda Shadow 750 cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca, que fez acompanhado de sua esposa, Edivânia Marques, 33 anos. Abaixo, um relato sobre sua aventura pela patagônia chilena.
 
Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira abaixo mais um divertido relato sobre a aventura do casal (Parte I): 
(Doravante, Edivânia será a protagonista, como no livro. VD significa Velho Doido que sou eu.)

Terminei o texto da edição passada avisando que pegaríamos a temida Ruta 40. Estrada que permeia o deserto da Patagônia no sentido norte sul da Argentina paralela à Cordilheira dos Andes.  

Para entender melhor esta narrativa sugiro uma busca no Google Maps: El Chaltén, Santa Cruz, Argentina até Ruta Nacional 40, Bajo Caracoles.

O único investimento do governo com essa estrada foi construir algumas pontes para atravessar poucos rios que descem da montanha na época do degelo. O restante nada mais é do que rastro de carros que foram criando sulcos com até 30 cm de cascalho.

Os primeiros 100 quilômetros eram bem compactados e foi possível rodar em velocidade razoável. Porém, na maior parte dos outros 338 quilômetros, andamos entre 10 e 30 quilômetros horários por causa das “costelas de vaca”, que ameaçavam desintegrar a moto. 

A Celestina tinha que ser conduzida rigorosamente na trilha formada pelos pneus dos carros, onde o piso era mais compactado. Pilotagem que gerava uma tensão muito grande nos braços e na concentração do condutor. Sem contar que a moto era imprópria para aquele tipo de terreno, e VD estava longe de ser um expert em pilotagem off road. 

Algumas vezes, a moto saía da trilha e afundava no cascalho, a ponto de ficar em pé sozinha, sem nenhum calço de sustentação. Nessas situações, era preciso empurrá-la de fasto, num esforço que nos consumia. 

A aproximação de um veículo, pela frente ou pela retaguarda, criava situações de apreensão, porque nem sempre era possível manter a moto no trilho. Como todos sabem, o equilíbrio é diretamente proporcional à segurança do equilibrista, razão pela qual, o risco da moto investir na lateral ou bater de frente ao veículo era considerável. 

Durante os “sepultos” da Celestina, aproveitávamos para comer, beber, namorar e apreciar a natureza exótica, formada por grandes planícies, algumas pequenas elevações e pela Cordilheira dos Andes nos observando ao longe. A terra árida e infértil era característica marcante daquele trecho.

- Lá pelas 12 horas vamos parar para almoçar e transferir a gasolina dos galões para o tanque da moto – disse VD, como se horário tivesse relevância naquele deserto. 

- Não acha que está formal demais? Que diferença faz marcar horário no meio de deserto? Você para a cada meia hora. – Retruquei.

O almoço citado seria um sanduíche com pão e mortadela, maionese e queijo, pois o vento não nos permitiria acender nosso fogareiro. 

Depois que o critiquei pela seriedade e pela inutilidade do relógio naquele deserto, rimos muito, mas muito mesmo. Estávamos felizes, apesar das adversidades. Qualquer bobagem era suficiente para nos fazer agachar, segurar o abdômen e chorar de tanto rir. 

Saciada com os carboidratos, minha impaciência com a velocidade aumentou. A moto não ultrapassava os 30km/h e, apesar de VD já ter melhorado sua habilidade de pilotar através do carril, eu não conseguia relaxar.

Apertar os pés na pedaleira com demasiada força e esticar o pescoço para conferir se a roda dianteira estava seguindo no rumo certo, foram reações involuntárias que me causaram severas dores localizadas. Além do tradicional incômodo no traseiro, que vinha me estorvando por toda a viagem, surgiu-me uma dor que começou no dedão do pé direito e comprometeu a perna. Outra começou no pescoço, passava pela escápula, indo irradiar na região lombar. 

Por volta das 17 horas, numa reta onde a estrada se perdia de vista, de onde era possível ver o horizonte por todos os lados, ocorreu-me um pensamento amoroso em relação ao meu parceiro: Coitado! Se sou mais nova e estou sofrendo, imagina ele que é bem mais velho? Deve estar triplamente mais abatido com o esforço da pilotagem.

Mal concluí a reflexão e VD parou a moto no meio da estrada - mesmo porque seria imprudente tirá-la do carril - e se jogou de costas no cascalho. Fazia caretas, gemia e reclamava de dores generalizadas: nos dedos, no braço, no ombro e na região cervical. Seu lado direito doía mais. Talvez pelo esforço de utilizar constantemente a mão direita para acelerar, frear e sustentar o guidão.

Diante daquela situação, eu não sabia se vigiava a estrada para sinalizar, caso aparecesse outro veículo, ou se fazia massagem para restabelecer o meu piloto. Outra preocupação era em relação ao sol, que mesmo sendo imperceptível por causa do frio, era implacável. Bastaria alguns minutos com o rosto virado para cima para sofrer algum tipo queimadura. Reforcei o protetor solar em sua face, tomamos uns comprimidos analgésicos e esperamos infrutiferamente pelos seus efeitos. Só depois descobri que tinha confundido os remédios e engolido pílulas inapropriados para dores musculares. 

Depois de alguns minutos deitado, VD levantou-se, comeu algumas bolachas, pegou o mapa, olhou o hodômetro da moto e afirmou:

- Pela distância que já rodamos hoje, faltam entre 70 e 80 quilômetros para a próxima cidade. Se mantivermos a mesma média de velocidade, chegaremos lá por volta das 22 horas.     

Às 21 horas, com o sol ainda em ocaso, chegamos à surpreendente localidade de Bajo Caracoles. Apesar de constar do mapa rodoviário do Mercosul como sendo uma cidade, só dispunha de oito edificações. Uma delas era simultaneamente restaurante, lanchonete, hotel e posto de gasolina. Foi para lá que nosso instinto faminto nos conduziu.

Por causa do adiantado da hora, só conseguimos pizza requentada. Enquanto comíamos, perguntamos ao atendente sobre quem era o proprietário. Diante da afirmativa de que era ele mesmo, pedimos autorização para acampar nas imediações, pois estávamos muito cansados e com pouco dinheiro. Ele respondeu, seriamente.

- Eu sou o dono deste estabelecimento e das demais casas que vocês encontrarem por aqui. Então, para que vou deixá-los acampar, se preciso do dinheiro de vocês?

Ouvimos cabisbaixos, porque não fazia parte dos nossos planos dormir em hotel. O nosso cansaço dispensava conforto e não compensaria pagar por um quarto só para desmaiar. Banho seria bom, mas prescindível, porque quase não tínhamos suado, e a noite começara dando sinais de que seria como a anterior: muito fria. Quando estávamos terminando o jantar, o homem voltou a falar com a mesma seriedade.

- E tem mais! Vocês têm um Presidente da República que promove distribuição de renda. O melhor da América do Sul. Por causa dele vocês têm uma moto bonita e dispõem de dinheiro para gastar em viagens.

Fitando com frieza os olhos do argentino, VD levantou-se, puxou-me pela mão, e saímos da lanchonete deixando o proprietário falando coisas em espanhol que não entendíamos.

Do lado de fora, com o objetivo de me aquecer do vento frio que soprava, abracei solidariamente meu companheiro e ficamos alguns segundos em silêncio, pensando no que fazer. Enquanto isso, o argentino apareceu à porta, às gargalhadas, dizendo. 

- Foi brincadeira! Vocês podem ficar onde quiser. Eu adoro os brasileiros, principalmente os doidos como vocês. Você – exclamou o apontando para mim - é uma mulher sem juízo ou é corajosa? Dificilmente aparece mulher na garupa de uma motocicleta por essas bandas. O risco de cair e se ferir é muito grande. 

Voltamos para dentro do estabelecimento e a conversa se estendeu animada. Ficamos admirados com a energia do homem. Sozinho abastecia os carros no posto, atendia no balcão da lanchonete e do hotel. Como não tinha concorrente, muitas vezes algum cliente precisava esperar a boa vontade do proprietário para ser atendido.

Armamos acampamento ao lado do restaurante, sem escolher piso, e adormecemos entorpecidos pelo cansaço. No dia seguinte, preparei o tradicional leite com chocolate vitaminado, comemos, levantamos acampamento, abastecemos a moto e os galões reservas, despedimo-nos efusivamente do empresário do deserto e pegamos novamente a Ruta 40. 
 

Sinomar Godois Tavares, 58 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
 http://www.facebook.com/sinomarg

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Fotos: Divulgação.