Diário de bordo: Os Aventureiros na Patagônia – Parte I

21 de Outubro de 2013

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ENCONTRODEMOTOS.com

Com 57 anos, Sinomar Tavares coleciona histórias para contar. Em 2008, quando faltava pouco para sua aposentadoria, comprou uma Honda Shadow 750 cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca, que fez acompanhado de sua esposa, Edivânia Marques, 33 anos. Abaixo, um relato sobre sua aventura pela patagônia chilena.
 
Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira abaixo mais um divertido relato sobre a aventura do casal:
(Doravante, Edivânia será a protagonista, como no livro. VD significa Velho Doido que sou eu.)

Na edição passada, narrei o sofrimento e o prazer de visitar dois parques da Patagônia. Agora, vou escrever sobre o parque onde fica o Fitz Roy, um pico desafiado por alpinistas de várias partes do mundo. Alguns, como um escalador brasileiro no início deste ano, não voltaram vivos lá de cima. Porém, nós fomos apenas até sua base.

O vilarejo de El Chaltén possui poucas casas e fica encravado entre dois paredões de rocha compactas e arredondadas, como se Deus, ao criar o mundo, tivesse dedicado algum tempo exclusivamente para alisar, com uma brocha gigante, aquelas pedras enormes. Um comerciante local nos disse que o povoado possuía 700 habitantes, mas achei o número elevado em relação à quantidade de casas. 

El Chaltén é considerado a capital argentina do trekking e atrai aficionados do mundo todo. Dos turistas que encontramos, cerca de dois terços eram jovens, mas, o que me surpreendeu, foi o grande número de pessoas com mais de sessenta anos de idade. Os mais jovens pegavam suas mochilas e saíam a qualquer hora para acamparem em algum ponto do trajeto. Mas a maioria preferiu dormir em pousadas ou campings, para partir ao amanhecer, conforme fizemos. Às 8 horas da manhã, iniciamos nossa caminhada rumo ao pico mais famoso da região, o Fitz Roy, com previsão de retornar nove horas depois. 

No início, por inexperiência, felizes e alegres, andamos depressa e ultrapassamos diversas pessoas. Qualquer acontecimento era motivo de risadas. Com uma hora de caminhada, entretanto, aquelas pessoas que havíamos ultrapassado foram se reposicionando à nossa frente. 

Andamos por uma flora já minguante, devido ao deserto que se aproximava: árvores medianas, pouco densas, entremeadas por ramos e capim, mas que forneciam sombra para os andarilhos em alguns pontos. Depois de três horas de caminhada, chegamos a um paredão de pedra onde existia uma placa: "Subida perigosa, recomendada apenas para exploradores experientes". E aí?. Perguntamos um para o outro, procurando ajeitar as nádegas em uma das incontáveis pedras utilizadas como assento. As pernas ardiam e não nos permitiram reflexão clara sobre a situação.

Ficamos alguns minutos descansando, enquanto observávamos o trânsito dos andarilhos. Como numa piracema, a barreira constituía num obstáculo temporário para quase todos que ali chegavam; chegavam, refletiam e permaneciam por alguns segundos antes de desistir ou continuar. A nossa reflexão foi mais demorada. Um grupo composto por um rapaz e duas moças desistiu, causando-nos mais preocupação ainda. Quando estávamos no auge da indecisão, se continuaríamos a subida ou não, chegou ao local cerca de vinte septuagenários, comandados por uma linda guia turística. Os velhos nem se deram ao trabalho de sentar. Foram chegando, virando o pescoço para cima e partindo. A maioria usava uma bengala própria para esse tipo de caminhada. 

- São pessoas bem mais velhas que nós... Se elas conseguem, nós também conseguiremos. Temos que ir! – comentei.

- Você vai por causa dos velhos. Eu vou por causa daquela guia turística. Você viu que traseiro! – respondeu VD, em tom de brincadeira.

Desafiados por diferentes motivações, partimos montanha acima. Antes da metade da subida, encontramos duas moças que desistiram. Uma delas estava excessivamente ofegante, mas dispensou nossa ajuda. 

Logo adiante, enternecemo-nos com uma das idosas que se encontrava parada à beira da trilha, provavelmente abandonada pelo seu grupo. Estava na faixa dos setenta anos, era magrinha, esguia, sorridente e tinha cabelos cor de neve. Continuamos a escalada trocando palavras meigas a respeito daquela senhora, mas não tínhamos como ajudá-la. Não podíamos desviar a atenção, porque, em muitos momentos, a subida exigiu a utilização simultânea dos pés e das mãos. Passados dez minutos, escutamos vozes vindas da retaguarda. Olhamos para trás, e vimos a mesma velhinha com quem estávamos preocupados, toda alegre, cheia de energia, conversando com outras duas idosas. Não demorou muito e tivemos que dar passagem para elas, que caminhava em ritmo melhor que o nosso.

- Filha da puta! – brincou VD. – Esta velha me fez gastar desnecessariamente meu pequeno estoque de benevolência e compaixão.

Felizmente, havia muitos pontos de descanso pelo caminho. Algumas pedras pareciam esculpidas anatomicamente para receber nossos glúteos. Assim, podíamos diluir o esforço, num sobe, senta, levanta e escala. Depois de uma hora de subida íngreme, em posição vertical, chegamos a um platô belíssimo, o ponto final da nossa caminhada.

Nossa primeira providência ao chegar foi deitar e descansar por alguns minutos, posição que facilitou enxergar o cume do imponente Fitz Roy. Naquela plataforma terminava a subida daquele grupo, porém escaladores profissionais de diversas partes do mundo desafiam subir até o cume permanentemente gelado. Donde estávamos, ouvimos a bela guia turística, a “diva” de VD, afirmar que o Fitz Roy era tido como a sétima escalada mais difícil do mundo e que alguns alpinistas teriam morrido na tentativa.

A estratégia de nos aproximar de algum grupo, para escutar gratuitamente as explicações dos guias turísticos, era um subterfúgio muito usado por nós, para economizar dinheiro. Logo, esses profissionais percebiam nosso ardil e começavam a movimentar o grupo, olhando-nos com censura. Mesmo assim, os seguíamos por algum tempo e mudávamos malandramente de grupo. Porém, ali naquelas alturas, não havia outro guia além da “diva”, e tivemos que nos afastar. 

Caminhando pelo platô, alguns metros adiante, paramos surpresos: um lago extraordinariamente verde, oriundo do degelo da neve, surgiu aos nossos olhos. Espremido entre as montanhas, o lago ficava uns cem metros abaixo de onde estávamos. Posicionamo-nos de forma ousada na borda do barranco e ficamos por algum tempo apreciando a magia daquele cenário. O silêncio reinava entre os andarilhos. Os únicos ruídos percebidos eram os eventuais estalos do gelo se desprendendo das pedras e o assovio do vento frio que descia do Fitz Roy, como num filme de terror. 

Meu companheiro deitou com as pernas e braços abertos, em posição privilegiada que lhe permitia visão panorâmica e simultânea do pico, da água e da neve que se formava entre as escarpas menos íngremes. Achei tão interessante, que tirei diversas fotos dele naquela posição, como se VD fosse parte integrante da paisagem. Como não tínhamos levado barraca, o jeito foi retornar para El Chaltén no mesmo dia. A volta foi bem mais demorada, porque tivemos que descer com muito cuidado os quinhentos metros do paredão, que fez da descida um desafio bem mais arriscado que a subida.

O sono foi pesado e gratificante. O difícil foi atender aos chamados do VD para acordar, levantar e partirmos. Minhas pernas estavam endurecidas pela caminhada do dia anterior, o frio era forte muito forte do lado externo do saco de dormir, mas meu companheiro insistiu, dizendo que tínhamos 450 quilômetros para rodar naquele dia, por um trecho de cascalho que seria o mais difícil de toda a viagem. 

Na semana, escreverei sobre a aventura na temida Ruta 40.

Sinomar Godois Tavares
57 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
http://www.facebook.com/sinomarg

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Foto: 1- Divulgação | 2 - Arquivo pessoal