Diário de Bordo: Parque montanhoso

15 de Outubro de 2013

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ENCONTRODEMOTOS.com

Com 57 anos, Sinomar Tavares coleciona histórias para contar. Em 2008, quando faltava pouco para sua aposentadoria, comprou uma Honda Shadow 750 cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca, que fez acompanhado de sua esposa, Edivânia Marques, 33 anos. Abaixo, um relato sobre sua aventura pela patagônia chilena.
 
Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira abaixo mais um emocionante relato sobre a aventura do casal:

*A crônica é narrada por Edivânia Marques, que será a protagonista no livro. VD significa Velho Doido.

O objetivo seria alcançar o Parque Nacional Torres del Paine, uma reserva com 242 mil hectares criada em 1959 e, em 1978, declarada Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO, localizada na Patagônia chilena.  

Os primeiros 20 quilômetros até a sede da reserva foram percorridos com relativa facilidade, numa estrada poeirenta, mas nivelada. À medida que fomos aprofundando no parque, a estrada piorava e, cada vez mais, aumentava a quantidade e a profundidade das valas esculpidas pelas águas provenientes dos degelos, já que, aparentemente, a chuva não era generosa com a região. 

A transposição das valas era realizada com enorme sacrifício para VD, para a Celestina e para mim. Meu piloto gemia, fazia careta e, apesar da baixa temperatura, suava fartamente, obrigando-o, amiúde, a descansar os músculos dos dedos e dos braços; a Celestina se contorcia como se o chassi fosse de material flexível e, quanto a mim, tinha que apear diante das maiores ou mais profundas erosões e, muitas vezes, caminhar longas distâncias atrás da moto, esperando que a qualquer momento ela tombasse.

O tempo passava, o passeio não rendia e a dúvida sobre seguir ou voltar tornou-se questão importante nas nossas deliberações. O grande maciço de rocha o qual deveríamos contornar ainda estava à nossa frente e ocorriam-nos dúvidas se conseguiríamos alcançá-lo, mas a esperança da estrada melhorar, aliada com a preguiça e o medo de enfrentar os mesmos obstáculos de volta, impelia-nos a concluir o circuito. 

Decidimos que seguiríamos e que, pelo menos psicologicamente, não sofreríamos em razão dos buracos; acertamos que os encararíamos sem reclamação. O Sol não nos deixaria antes das 22 horas e teríamos muito tempo para sofrer ou curtir. Assim, em vez de lastimar, começamos a dar grandes gargalhadas dos nossos infortúnios até que, após uma curva, fomos nocauteados pela beleza de um lago surgido na nossa frente; VD estacionou a Celestina e determinou: aqui dormiremos. 

A montagem da barraca foi difícil, pois ventava muito e o solo pedregoso não permitia seu estaqueamento, motivo pelo qual, chegamos a pensar em partir, mas, depois de explorar a redondeza, encontramos um local plano e que possibilitava amarrar os quatro cantos da barraca nos arbustos e resolvemos a ficar. Para dar maior estabilidade, encostamos grandes pedras na lateral da barraca e nos instalamos longe da Celestina. 

Pela primeira vez na vida me senti como uma verdadeira aventureira, inclusive no quesito cozinha improvisada. Para proteger o fogareiro do vento forte e frio, visando fritar o bacon e ferver a água da sopa, tivemos que amontoar uma dezena de pedras em seu redor e, assim mesmo, gastamos muito gás. Outro quesito aventureiro era a falta de gente. 

Depois de jantarmos, aproveitamos o restante da luminosidade solar para fazer um tour pelas imediações, apesar da temperatura e da impetuosidade do vento patagônico. O cenário era maravilhosamente lindo. Em primeiro plano tinha à nossa frente o grande lago verde e, ao fundo, víamos a enorme formação rochosa de Torres de Del Paine, enfeitada por uma crosta irregular de neve, como um véu ou como uma calda branca. 

Ao contrário do conforto do colchão do hotel do dia anterior, agora, estávamos dormindo sobre pedras pontiagudas, imaginando que a qualquer momento a barraca seria levada pelo vento ou pelas raposas.

Fomos despertados pela luz solar e pelas dores lombares provocadas pelo trajeto e pelas pedras sob o colchão. Repetimos nossa labuta com o fogão para esquentar o leite, levantamos acampamento e partimos. 

Andamos uns seis quilômetros e nos deparamos com um majestoso hotel construído numa pequena ilha do lago. Ao vê-lo, paramos e rimos muito do nosso infortúnio de não ter andado mais um pouco. Mas nem paramos para conhecê-lo, pois aquele seria o dia em que começaríamos a enfrentar a temida Ruta 40, aproximadamente 800 quilômetros de cascalho, com longo trecho sem posto de gasolina. 

Parque congelado

Glaciar Perito Moreno, declarado como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO, é considerado como a maior geleira em extensão horizontal do mundo. Uma imponente massa de gelo azulada com cinco quilômetros de largura e sessenta metros de altura, classificada pela população argentina como a oitava maravilha do mundo, e fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, na província de Santa Cruz. O Parque foi criado em 1937 e possui mais de trezentas geleiras, abrigadas em seus 724 mil hectares de área protegida.

A rodovia de 80 km entre a vila onde dormimos e o parque era asfaltada e muito bem conservada. A primeira metade, muito monótona, quase toda na horizontal, construída sobre um platô formado de cascalho, cuja única vegetação era alguns fiapos de capim amarelecidos pelo vento e pelo frio. A outra metade da estrada, entretanto, foi adrenalina pura. A pista lisa e bem sinalizada possibilitava fazer as curvas com velocidade acima do normal e meu estômago esfriava e contraia cada vez que as pedaleiras raspavam o asfalto. À esquerda, tivemos a companhia agradável do lindo Lago Argentino; à direita um barranco alto e íngreme que contracenava com a serenidade da água verde. 

Depois de um tempo, começaram a intercalar, entre uma curva e outra, visões privilegiadas do parque gelado. Após uma delas, cessaram-me as silenciosas exclamações de “É agora! É agora!”, e estacionamos boquiabertos. Surgiu-nos a vista panorâmica de uma gigantesca massa de gelo.

A primeira impressão que tive, ao enxergar o Graciar, foi que Deus usando um caldeirão gigantesco despejara aquela calda extraordinária que escorreu até endurecer. Depois, imaginei tratar-se de lavas de uma erupção vulcânica invadindo a terra, vindas do além, mas que endureceram ao tocar nas águas verdes do Lago Argentino. Contudo, a semelhança com lavas vulcânicas limitava-se apenas ao formato da massa compactada. A cor era predominantemente azul, pincelada de branco e cristalina como vidro.  

Chegando ao ponto desejado, sentamos em um banco sob o sol e permanecemos seis horas admirando aquele monumento da natureza. O frio e o vento eram muito fortes e nos obrigaram a reforçar as roupas, calçar luvas, enrolar cachecol no pescoço e cobrir a cabeça com balaclava. 

No início, nosso interesse se restringia em observar a conformação da massa congelada, mas, depois de alguns minutos, descobrimos outro entretenimento: adivinhar qual seria o próximo pedaço de gelo a despencar sobre o lago. Começamos a competir com outras pessoas apontando para locais diferentes e apostando que o “nosso” bloco de gelo seria o próximo a se desprender e a estrondar na água. Quando coincidia nosso prognóstico, comemorávamos como uma vitória. 

A ruptura do gelo acontece no verão, quando o vento gelado bordeja a superfície agulhada e gera minúsculas porções de água que se prendem entre os prismas. O Sol, apesar de anêmico, consegue aquecer o líquido que infiltra e fissura o gelo. Assim, o bloco enfraquecido, desprende-se do aglomerado principal e desaba sobre o lago, provocando estrondo audível a quilômetros de distância. Ao cair, transforma-se em iceberg que singra entre os barcos e derrete lenta e imperceptivelmente, na água verde. Ouvir o estrondo a cada vinte minutos, como um trovão de primavera, era comemorado aos gritos por todos os presentes.

Foram momentos extasiantes. VD parecia hipnotizado. Deixei-o na sua concentração fui preparar alguma coisa para a gente comer.

Enquanto comíamos, VD tentou fundamentar sua teoria sobre o Aquecimento Global. Mostrava-me duas faixas marrons que cruzavam horizontalmente a parede da geleira, lembrando camadas de um bolo. Era como se a geleira tivesse ficado muitos anos vinte metros mais baixa, acumulando sujeira, cresceu mais uns dez metros e parou novamente, recebendo poeira. Posteriormente evoluiu até o ponto onde se encontrava. Com essas duas cicatrizes de sujeira meu companheiro contestava a teoria de renomados doutores e respeitadas organizações científicas de que a terra estaria aquecendo incontrolavelmente. 

Seguindo o fluxo dos demais turistas deixamos o Glaciar e voltamos para dormir em El Calafate.  

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Fotos: 1 e 2 - Divulgação | 3- Arquivo pessoal Sinomar Tavares