A Vida Miserável de Dois Miseráveis (Parte I)

10 de de 2013

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ENCONTRODEMOTOS.COM

Com 57 anos, Sinomar Tavares coleciona histórias para contar. Em 2008, quando faltava pouco para sua aposentadoria, comprou uma Honda Shadow 750 cc e decidiu que parado não ficaria. Desde então, tirou habilitação e já percorreu as Américas, de Norte a Sul, o que lhe rendeu o apelido Velho Doido. Entre suas expedições, destacam-se Ushuaia e Alasca, que fez acompanhado de sua esposa, Edivânia Marques, 33 anos. Abaixo, um relato sobre sua aventura pela Cidade Perdida dos Incas.
 
Quer saber mais sobre esse aventureiro? Confira o perfil feito pelo portal ENCONTRODEMOTOS.COM: Velho Doido e o verdadeiro espírito do motociclismo

Confira a jornada de Tavares por Macchu Picchu:

Depois de levar uma bronca sem precedente da minha mulher por ter me sujeitado à extorsão da polícia aduaneira do Peru, tomei a decisão de passar-lhe o controle financeiro da viagem que acabara de começar.
 
Dois dias depois dessa decisão, chegamos bem cedinho à Cuzco, cidade que serve de apoio ao turista que deseja chegar à Machu Picchu. Cuzco nos surpreendeu pelo tamanho e pela importância histórica. Por isso, resolvemos, com anuência financeira da nova chefa, conhecer a cidade circulando num veiculo híbrido de vagão e ônibus.

Depois do passeio, fomos buscar as informações necessárias para alcançarmos as ruínas Incas de Machu Picchu. Quando minha administradora descobriu que teríamos que gastar em torno de R$ 740,00, exclamou:

- Tá louco? Esse valor corresponde a cinco dias de viagem! Só de trem temos que gastar U$ 230,00? Nada feito. Ou vamos de moto ou vamos embora!

Considerando que essa visita era parte prioritária da viagem, considerando que ela estava muito empolgada com a nova responsabilidade, considerando minha meta de fazer toda a viagem sem uma única irritação ou briga e, considerando ainda, que soubera pela internet que não havia outra forma de chegar a esse patrimônio da humanidade que não fosse de trem, fiquei apreensivo. Enquanto ruminava idéias pessimistas, a Edivânia buscava junto aos taxistas e guias turísticos informações sobre a possibilidade de viajarmos de moto. Todas as respostas foram negativas.

Vendo que a mulher estava irredutível, concluí que precisava postergar a decisão até conseguir mudá-la de ideia. Então a convidei para conhecermos o Vale Sagrado dos Incas, onde existiam três ruínas importantes: Chinceros, Urubamba e Ollantaytambo. A viagem foi agradabilíssima. Indescritível. 

Em Ollantaytambo, a luz solar acabou e tivemos que dormir. Enquanto desmontava a tralha campal, a companheira deu uma desaparecida, mas logo voltou correndo ofegante, chamando insistentemente e arrastou-me pelo braço até um motorista de van. O objetivo era ouvir o profissional afirmar que havia como chegar até as ruínas de Machu Picchu de moto. Teríamos que rodar um trecho de 250 km, sendo 70 km sem asfalto. 

No dia seguinte, com a mulher bem feliz na garupa, entramos num vale cuja estrada serpenteava um rio e depois nos levou a 4.316 metros de altitude, numa paisagem impressionantemente bela. Os Incas tiveram bom gosto para escolher o local. Quanto mais subíamos a montanha, mais o frio apertava. 

A paisagem na subida era de uma mistura de capim e pequenos arbustos e as nuvens eram mansinhas a ponto de pegá-las. Ao transpor o cume, a paisagem tornou-se amazônica e as nuvens transformaram-se em chuva forte; quase entanguimos de frio, mas continuamos a rodar, pois minha experiência com os Andes assegurava-me que a temperatura aumentava na descida. Posteriormente descobri que os rios que nascem após a montanha são formadores do nosso Rio Amazonas. 

Por volta do meio dia, nas proximidades de uma comunidade chamada Ruínas de Santa Teresa, o asfalto acabou. As próximas cinco horas foram gastas para rodar 60 km até a localidade de Santa Maria. Nessa localidade, taxistas e vaneiros nos informaram que não adiantaria seguirmos, pois chegaríamos a uma hidrelétrica, propriedade privada e que não teríamos onde dormir. Porém minha companheira decidiu: “Já chegamos até aqui, vamos seguir. O pior que pode acontecer é voltarmos”.

A impressão que se tinha, ao pilotar, foi que a quantidade de curvas não cabia naqueles 15 km de estrada; uma atrás da outra. Para piorar, riachos cruzavam livremente a estrada – um deles cobriu o escapamento da moto - e o caminho era muito estreito.  Eventualmente, deparávamos com um veículo e tínhamos que parar. Não tenho o hábito de orar, pois acho que Deus não tem culpa das minhas maluquices, mas a cada tomada de curva pedia-Lhe proteção.

Porém, a recompensa veio na última curva quando deparamos com um cenário deslumbrante: dois túneis furados na serra, no diâmetro de um fusca, ou maiores, jorravam dois tufos de águas absolutamente limpas de uma altura de 100 ou 200 metros. A engenharia usou a própria rocha da montanha para instalar as turbinas; o rio atravessava as entranhas do rochedo e saía sob grande pressão.

Os dois recepcionistas da usina nos atenderam muito bem: declararam que estavam de saída e que não ficaria ninguém à noite. Pacienciosamente prestaram-nos diversas informações: o local era o ponto final do trem vindo de Cuzco; a partida era às 9h; a passagem custava U$ 8,00 e que dezenas de jovens mochileiros do mundo todo faziam a caminhada pelos trilhos. 

Começava a escurecer e não tínhamos coragem, nem energia, para voltar à cidade. Procuramos um ponto mais liso na margem do rio, descemos toda a tralha da moto, montamos a barraca, mas nosso trabalho foi interrompido. Dois rapazes sem identificação se diziam guardas da usina e nos proibiram de acampar no local. Diante dos nossos argumentos lastimosos, mandaram-nos segui-los até outro local. Entramos numa trilha e chegarmos a uma casa que servia de laboratório para a cria de alevinos. Informaram que no local morava um zelador.

Excetuando o Cassino em Las Vegas, onde passamos duas noites como marajás, esse foi o local mais lindo onde dormimos em toda a viagem. Pena que a noite estava apressada e tínhamos que agilizar o acampamento e curtimos pouco o visual. Tomamos banho no lindo, límpido e frio rio que passava a poucos metros, fizemos nossa comida e o vigia não apareceu. Foi então que a Edivânia levantou a hipótese que os dois rapazes viriam nos assaltar à noite. Ela achou a hospitalidade exagerada e a recepcionista havia nos dito que não ficava ninguém no local.
 
Às três horas da manhã o relógio despertou. Aparentemente era muito cedo, mas seriam seis horas de sono, não fosse o temor ao suposto assalto. O medo roubou nosso sono; qualquer barulho na vegetação nos despertava, e levou nossa disposição para levantar. Para piorar, um chuvisco ralo indicava possibilidade de chuva. Mas mesmo assim levantamos acampamento.

Por volta das quatro horas, ainda muito escuro por causa das nuvens, dei partida na moto, a companheira montou e pegamos a trilha de volta à estrada. Porém, não sei se o farol estava embaçado ou à nebulosidade, tive a impressão que estava sem óculos. Quando levei a mão ao rosto para certificar-me dele, perdi o controle e a moto se embrenhou através da vegetação rumo ao barranco do rio, caindo e provocando-nos um baita susto. Verticalizar a Celestina pesando quase 250 kg, ainda inclinada no sentido do rio, causou-me uma fisgada na região lombar. Num primeiro momento pensei até que estava inválido, porém pedi ajuda aos deuses Incas e logo a dor transformou-se num ardume.

Encostamos a moto, os capacetes e toda bagagem ao lado da pequena construção indicada no dia anterior e, às 5 horas, em ponto, na terceira tentativa para achar os trilhos, iniciamos a caminhada, otimistas e alegres. Nosso desentendimento lúdico era apostando sobre a distância que teríamos que andar: alegava-lhe ter ouvido nove quilômetros e ela teimava que eram seis e essa discussão prolongou até o sexto quilômetro.  A energia que movia nossas pernas foi diminuindo na proporção que os indicadores da estrada de ferro aumentavam; logo começamos a ser ultrapassados por jovens com aparência japonesa e outros com aparência alemã. Ganhei a teima: a cidade de Águas Calientes apareceu após o marco do quilômetro nove. 

Essa cidade fica no pé do morro, em cujo cume estão as ruínas. A Edivânia foi até o ponto de ônibus e ficou sabendo que a passagem para subir o morro num confortável e refrigerado veículo custava U$ 15,00 por pessoa. Ficou sabendo também, que gastaríamos duas horas para subir a pé. Na próxima edição, num suspense Hitchcockiano, o leitor ficará sabendo qual o tipo de locomoção minha esposa escolheu.
 
Sinomar Godois Tavares, 58 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
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Blog: http://sinomarg.blogspot.com

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Fotos: DIvulgação.