Diário de Bordo: os banheiros da estrada

16 de Dezembro de 2012

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Bárbara de Alencar

As viagens de motocicleta sempre proporcionam boas histórias para contar. É o caso de Sinomar Tavares. Apelidado de Velho Doido, aos 58 anos, ele percorreu as Américas de norte a Sul com suas duas companheiras: Edivânia Marques, 33 anos, e Celestine, uma Honda Shadow 750cc.

No relato de hoje, ele nos conta as dificuldades de achar banheiros na estrada.

AS PIORES CAGADAS DAS NOSSAS VIAGENS

Vai completar um ano que retornei da viagem de moto ao Alasca e até hoje as pessoas (e eu) adoram comentá-la. Cada um faz a pergunta que mais o angustiaria caso fosse ele o viajante: dinheiro, burocracia, dores corporais, defeitos mecânicos, etc. As mulheres, normalmente, perguntam como tomávamos banho ou como fazíamos o “número 2”. Considerando sua importância, resolvi fazer deste a presente matéria.

Na verdade, numa grande viagem, o “número 2” é preocupante em qualquer meio de transporte: moto, carro, barco, avião ou trem. Numa viagem que fiz num Airbus A340 entre São Paulo e Toronto, no Canadá, quando fiquei quase dez horas dentro da aeronave, a questão de sanitário foi-me problemática; tive dificuldade em entender o funcionamento, que acostumar com a claustrofobia e com a fila externa. Por lei uma aeronave tem que disponibilizar um banheiro para cada grupo de 50 passageiros, mas acho que a maioria dos 380 ocupantes usava os dois que ficavam próximos da minha poltrona. Para piorar a situação, ainda no inicio da viagem, alguém vomitou e lambrecou um deles, obrigando-nos a concentrar no outro.

Conforme já escrevi aqui, a travessia entre o Panamá e a Colômbia foi feita em veleiro. Após alojarmos o comandante chama os passageiros para uma preleção e determina:

- Pessoal! o barco só tem um banheiro e não temos quem o limpe, por isso, os homens o usarão somente para o “número dois”. O  “número um” será feito no mar; segurem firme na grade de proteção, pois, se caírem no mar, será muito difícil localizar e resgatar uma pessoa nessa imensidão de água.

Nos cinco dias seguintes sofri muito com esse problema. Descobri que depois de evacuar a merda do meu intestino tinha de evacuá-la para o Caribe. O processo funcionava como uma bomba de encher pneu: levantando o êmulo, a água era aspirada do mar; abaixando, a água contaminada era empurrada de volta ao oceano. Atividade que exigia até vinte bombeadas em cada uso. A pressão que o mar fazia, tentando entrar pela válvula, era enorme, exigindo muita força para superá-la. A operação era tão dificultosa que, quando minha esposa usava o banheiro, cabia-me a tarefa de bombear seus dejetos, pois ela não dava conta de manusear o equipamento. Muitas vezes eu tinha que expelir o produto do último usuário antes de usarmos o minúsculo vaso. Sem falar em outros contratempos como o calor infernal, o balanço do barco, que complicava o equilíbrio e, eventualmente, nos jogava com as calças nas mãos para o corredor, além dos barulhos e odores, que invadiam o barco.

Quanto às estradas, exceto em três oportunidades que descreverei a seguir, a situação foi relativamente tranquila. Como meus joelhos são “bichados” e não me permitem acocorar-se por um tempo superior a três minutos, adotava uma série de precauções. Quando encontrava um banheiro limpo, num posto de gasolina ou num shopping, mesmo sem vontade, sentava e espremia meu intestino. Outras vezes, quando a vontade surgia durante a pilotagem, portava-me de acordo com a urgência: ora entrava de posto em posto até encontrar um banheiro limpo, ou encarava o primeiro que encontrava. Um galho de árvore, um tronco caído ou uma grande pedra servia para me aconchegar e me poupar da dolorosa artrose. 

Quando subia pelo Chile, um pouco antes de entrar no Deserto do Atacama, por volta da cidade de Copiapó, fui acometido de uma diarreia. A primeira manifestação foi facilmente resolvida dentro de um Shopping da cidade. Posteriormente, peguei a estrada continuando para o norte. Entretanto, não andamos muito e não suportei a dor abdominal; estacionei a moto no acostamento e procurei um cacto grosso mais distante, carreguei uma pedra e me posicionei sentado atrás da planta.

Rodamos mais uns 200 km e já estávamos no meio do deserto mais seco do mundo. Não se via mais nada a não ser areia; nem mesmo uma pedra; nem mesmo um fiapo de capim. Foi nesse cenário desolador que a disenteria reincidiu, obrigando-me a parar imediatamente. Peguei o papel e saí correndo tentando encontrar uma duna para ocultar pelo menos minha bunda. Porém, a força que eu fazia para desenterrar os pés da areia, aumentava minha dor e me fez agachar rapidamente. A dificuldade me fez pensar que já havia andado muito, mas quando abaixei as calças e virei para o lado da moto foi que descobri que estava a menos de vinte metros da estrada.

Enquanto alternava o peso do corpo sobre um joelho e outro, tentando minimizar as dores, assistia as manifestações dos motoristas que passavam na estrada; ora acenando e gritando; ora buzinando. Num determinado momento, quando transpirava aos horrores pelo calor e pela dor, pensei: “no próximo intervalo de carros levanto e me limpo”. Porém, com o objetivo de nos prestar socorro, um micro-ônibus estacionou e, enquanto o motorista namorava a moto e minha mulher, seus passageiros disputavam a janela do coletivo para gritar, acenar e fotografar-me naquela posição. Não aguentando mais de dor e zangado com a plateia, levantei e me limpei precariamente, vesti as calças e comecei a caminhar de volta à Celestina, quando o ônibus partiu. Minha mulher molhou as calças de tanto rir.

Numa outra urgência, no México, entrei no banheiro que, por ser coletivo, não dispunha de chave. Somente depois de sentado e me aliviado parcialmente foi que comecei a analisar o ambiente. Tratava-se de um cômodo sem divisória alguma, portanto com todas as louças absolutamente visíveis.  Ao meu lado havia outro vaso sanitário a dois metros de distância; na parede à esquerda ficavam dois urinóis masculinos e na outra um lavatório. Em poucos segundos entram dois mexicanos que me cumprimentam, como se lhes fossem natural presenciar um homem cagando; arrancam suas ferramentas e mijaram rapidamente. A satisfação de ver a dupla saindo não demorou muito, pois, em seguida, entra um homem apressado, abaixa as calças e senta ao meu lado. Depois de fazer a primeira e barulhenta descarga intestinal, foi que ele me dirigiu um  “Buenos dias”; felizmente eu estava terminando, mas tive que me limpar ao lado dele.

O povo mexicano, notadamente a população do Oeste, não tem muita cerimônia para realizar suas necessidades fisiológicas. Numa dessas lanchonetes de beira de estrada, onde param ônibus, os urinóis masculinos foram fixados numa parede externa que cobria do pescoço para baixo e os homens urinavam olhando para os ônibus e vice-versa.

Na Guiana Francesa, depois de rodarmos muitas horas dentro da Floresta Amazônica, numa estrada asfaltada, lisa, longa e muito estreita procurei um acostamento mais largo e estacionei fora da pista para descansar o esqueleto e fazer um café, mas logo a barriga doeu. Como a floresta era impenetrável aproveitei uma árvore caída bem pertinho da moto e da estrada e a usei como sanitário. Quando eu estava no ápice da tarefa estacionou um carro da Polícia para nos prestar socorro. Quando o policial passageiro levantou a cabeça para sair do carro e deparou com a minha bunda exposta, a cinco metros de distância, resmungou algo em francês e voltou a sentar. A única coisa que consegui dizer antes da viatura partir foi: “Sorry. I dont speak French!”. Daí para frente em toda curva esperava encontrá-los. 

Sinomar Godois Tavares, 58 anos
Bacharel em Direito e Ciências Contábeis
E-mail: sinomarg@gmail.com
http://www.facebook.com/sinomarg

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